As folhas de figueira do jardim

3/18/20262 min ler

No começo da história, havia uma liberdade rara no Jardim.

Na história biblica Adão e Eva caminhavam pela vida sem máscaras.
Sem medo de serem vistos.
Sem vergonha de quem eram.

A Bíblia diz que estavam nus e não sentiam vergonha.

Eu gosto de pensar que não era apenas nudez física.
Era algo ainda mais profundo.

Eles estavam nus espiritualmente.

Conhecidos.
Aceitos.
Inteiros.

Não havia necessidade de esconder nada.

Quando o conhecimento mudou tudo

Então veio o fruto.

O fruto do conhecimento do bem e do mal.

E junto com ele veio algo novo: consciência.

De repente, eles perceberam algo que antes não os assustava:

suas limitações, suas falhas, sua humanidade imperfeita.

E algo mudou dentro deles.

O que antes era apenas corpo se tornou vergonha.

O que antes era transparência se tornou medo.

As primeiras folhas de figueira

A primeira reação deles não foi correr para Deus.

Foi se esconder.

Eles costuraram folhas de figueira
para cobrir aquilo que agora parecia inaceitável.

Não era apenas o corpo que estavam tentando cobrir.

Era o medo.
Era a culpa.
Era a sensação de não serem mais dignos de serem vistos.

O Deus que caminha no Jardim

A história conta algo muito bonito.

Deus caminhava pelo Jardim ao entardecer.

Era um encontro cotidiano. Familiar.
Esperado.

Mas naquele dia algo estava diferente.

Adão e Eva não estavam no lugar de sempre.

Então Deus faz uma pergunta simples:

“Onde você está?”

Não porque Ele não soubesse.
Mas porque eles precisavam responder.

As folhas que ainda usamos

Metaforicamente falando,
talvez ainda usemos folhas de figueira hoje.

Folhas feitas de:

perfeccionismo,
controle,
comparação,
indiferença aparente.

Pequenas camadas que usamos
para esconder aquilo que temos medo de mostrar.

Medos.
Inseguranças.
Vergonhas.

Partes nossas que achamos que não seriam aceitas.

O convite do Jardim

Mas o Jardim continua sendo um lugar de encontro.

E a pergunta ainda ecoa:

“Onde você está?”

Não como acusação.
Mas como convite.

Um convite para sair de trás das folhas.
Para ser visto novamente.

Porque o mesmo Deus que caminha pelo Jardim
não se assusta com a nossa humanidade.

Ele sempre esteve interessado em algo mais profundo:

o relacionamento.

Talvez a pergunta não seja apenas onde estamos fisicamente.

Talvez seja:

Onde estamos escondidos?

E talvez o caminho de volta ao Jardim,
à paz que você procura não seja se consertar primeiro.

Seja apenas sair de trás das folhas.

Porque a paz começa
quando você já não precisa mais se esconder.

Texto: Priscila Sotana